quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

O NATAL


Já se aproxima o fim do ano, e com ele as festividades do natal... Eu que nunca fui de me lembrar dos eventos da minha infância ― na minha memória, é uma fase de poucos registros ― me recordo perfeitamente de alguns natais...

Lembro-me de todos os anos a minha avó paterna, dona Lygia, armar a árvore de natal e enchê-la de bolas e enfeites, enquanto contava a mim e a meus irmãos a história do nascimento do Menino Deus. Como adventista, ela era profundamente zelosa e severa na observação dos Dez Mandamentos e não permitia a colocação de anjos e presépios entre os enfeites, pois segundo ela violavam o mandamento divino que proibia imagens de escultura (Êx 20.3-6), e da mesma forma também não permitia a figura do Papai Noel, ensinando a todos os netos que ele se tratava de uma figura apócrifa, que fora inserido no natal mais como uma forma de incentivar as compras e o consumismo, assim como o “coelhinho” foi inserido na Páscoa... Logo, cresci sabendo que papai Noel não existe! 

Todo o ano tinha em nossa sala uma árvore enfeitada com bolas coloridas e outros penduricalhos. Em um ano de menos aperto financeiro foi possível comprar um jogo de lâmpadas pisca-pisca, que hoje são muito comuns nas lojas e camelódromos, mas que naquela época, meados da década de 1970, eram raros e caros, e só pudemos adquiri-lo depois de algum sacrifício. Meus olhos infantis brilhavam de alegria diante de tanta luz, por ocasião desta aquisição... Até hoje, o período natalino é uma época do ano que me fascina. O clima parece que muda ao nosso redor... Eu faço questão de, anualmente, cuidar dos enfeites, e já estou fazendo a contagem regressiva! 

Porém, o que me preocupa em nossos dias é a proliferação de estudos, pregações e artigos que afirmam categoricamente que o natal é uma festa pagã, e que o crente que comemora esta data, que arma a árvore e enfeita a casa com enfeites temáticos da época, está cometendo pecado grave. As redes sociais se tornam insuportáveis, pois um monte de gente transforma como prioritária a conversão de crentes pagãos que comemoram o Natal!! 

Esta novidade até muito pouco tempo inexistia na igreja evangélica — era uma exclusividade das Testemunhas de Jeová, que nem mesmo aniversários comemoram, e consideram o natal pagão e blasfemo. Ou seja, estamos trazendo das TJ novas doutrinas para a igreja, baseadas em premissas erradas... Em relação à ceia natalina, já ouvi muitos pastores afirmarem que é glutonaria... E por aí segue... Mas o fato é que, aos poucos, esta ojeriza ao natal está tomando corpo dentro da igreja e ganhando status de doutrina. 

Para mim é difícil absorver toda esta “novidade doutrinária”, pois desde que eu me entendo por gente o natal sempre foi comemorado nas igrejas evangélicas, sem nenhum questionamento. Minha família sempre foi cristã evangélica, de sorte que desde a mais tenra infância foi-me dada educação religiosa cristã, mas nesta educação em momento algum foi-me ensinado que a comemoração do natal era errada. Durante toda a década de 1970 ou 80, período de minha infância e adolescência, nunca ouvi que o natal era pagão e pecaminoso, quer de familiares, quer de qualquer pregador evangélico! Meus pais, meus avós maternos e meu avô paterno eram presbiterianos, e minha avó paterna, que exerceu muita influência na minha educação, era adventista (em tempo: não sou adventista e nem concordo com muitas coisas que eles pregam). Quase todo o ramo materno da minha família (tios, primos etc) é evangélico; contudo, todos estes meus parentes sempre comemoraram o natal, sem qualquer questionamento. Além disso, passei minha infância e adolescência frequentando igrejas tradicionais e recebendo nelas minha base religiosa, em uma época de rigidez doutrinária muito maior que a atual, mas nelas se comemorava o natal normalmente. 

No início da década de 1980, aos quinze anos de idade, eu tive minha experiência pessoal com o Senhor, recebendo e reconhecendo Jesus Cristo como meu único e suficiente salvador. Tornei-me membro da Igreja Missionária Evangélica do Betel Brasileiro de Rio Formoso, uma pequena igreja pentecostal numa pequena cidade do interior de Pernambuco. Era uma época onde as igrejas pentecostais eram excessivamente rígidas, e nas cidades de interior a rigidez era dobrada, de sorte que muita coisa que hoje é considerada normal em nosso meio naquela época era considerada pecado. Só para exemplificar a rigidez da época, certa vez decidi usar uma fina e discreta corrente de ouro no pescoço, presente de um tio. Em poucos dias o seminarista dirigente da Congregação veio falar comigo e rapidamente me “convenceu” a deixar de usá-la, caso contrário eu seria disciplinado! Hoje quando vejo jovens em nossas igrejas usando correntes, piercings e tatuagens, lembro-me deste episódio e imagino o que seria deles se tivessem vivido na minha época de juventude... Mas mesmo com todo este rigor doutrinário e no âmbito dos usos e costumes, a Igreja sempre era enfeitada durante o período natalino, com direito às luzinhas e aos enfeites, e algumas Igrejas usavam até a árvore nos enfeites! Em todas as Igrejas da cidade, até mesmo nas mais radicais, havia o culto especial de natal, geralmente com apresentação de peças teatrais, corais, jograis, cantatas e ceia comunitária após o culto. 

Em 1986 eu ingressei no Instituto Bíblico Betel Brasileiro em João Pessoa, na Paraíba, para estudar Teologia sob a batuta da Miss. Lídia Almeida de Menezes, mulher rigorosíssima na doutrina cristã, de saudosa memória. Nunca ouvi esta mulher de Deus mencionar qualquer coisa contra a comemoração do natal. Embora ela fosse bastante radical até no que se diz respeito às doutrinas de usos e costumes, víamos no Seminário sua aprovação diante das programações que nós, seminaristas, fazíamos para comemorar a data nos campos mantidos pela instituição. Jamais o proibiu ou limitou, sob a argumentação de que a comemoração do natal era pecado. 

Até mesmo nas igrejas dos sertões da Paraíba e Pernambuco que conheci nesta época de seminarista, onde o Evangelho era pregado e vivido de forma muito mais radical que nos centros maiores, o natal era comemorado com árvores e enfeites coloridos. Vi certa vez uma “árvore de natal” inusitada em uma igreja do alto sertão de Pernambuco: um mandacaru (um cacto, típico da vegetação da caatinga), devidamente enfeitado e iluminado ao lado do púlpito de uma denominação rigorosíssima, que omito o nome por razões éticas. Já vi igrejas fazerem “presépios vivos”, com pessoas fazendo os papeis de José, Maria, os três reis magos e um bebê ou um boneco representando o menino Jesus... O grande teólogo inglês C. S. Lewis, em sua obra direcionada ao público cristão juvenil “O LEÃO, A FEITICEIRA E O GUARDA ROUPA”, que foi publicada no Brasil na década de 1980 pela ABU EDITORA e recentemente adaptada ao cinema sob o título de AS CRÔNICAS DE NÁRNIA, chegou a associar o Cristianismo à comemoração do natal, inclusive associando-o à figura do "papai Noel"! Que sacrilégio, heim?! 

Somente no final da década de 1990 é que começou a circular nas igrejas, principalmente nas neopentecostais, os rumores que o natal era pagão. Era mais uma “novidade” dentro da igreja, que começou nitidamente em denominações sem muita firmeza doutrinária e se espalhou como joio no meio do trigo, como fogo na palha seca, de sorte que hoje esta novidade tem sido aceita até por muitas igrejas sérias e tradicionais! 

É de se estranhar que há mais de três décadas igrejas radicais que condenavam o corte de cabelo feminino, o uso de perfumes, de maquiagem, de refrigerantes, de roupas jeans, de joias e bijuterias etc, aceitavam sem restrições a comemoração natalina e os seus enfeites, e nunca viram nisto indícios de pecado. Enquanto isso, os “teólogos das revelações” dos dias atuais descobriram que o natal é pagão e pecaminoso, e que a Igreja vem pecando todos estes anos passados... Como pode um costume ser tolerado por tantos anos, em épocas muito mais radicais e rígidas, e de repente alguém, em pleno final do Século XX e início do XXI, descobrir que a igreja todos estes anos estava incorrendo em “pecado natalino”? É até inacreditável que os reformadores, os avivalistas e os homens de Deus do passado tenham incorrido em tão grave erro, e somente os “grandes homens de Deus do Século XXI” foram agraciados com tamanha iluminação!

Por outro lado, vemos outro tipo de extremismo nestas mesmas igrejas e nestas mesmas pessoas que se posicionam contrários ao “paganismo natalino”: embora o natal seja uma festa cristã (pelo menos pelo fato de se tratar da festa comemorativa à Encarnação de Cristo), preferem se apegar às festas judaicas do Antigo Testamento, como a festa dos Tabernáculos, o Purim etc, comemorando-as em suas igrejas e esquecendo que elas foram instituídas para o povo judeu, e não para a comunidade cristã, que deve viver de acordo com os ditames do NT, e não mais pelos costumes do AT (At 15). Estas mesmas pessoas e igrejas rejeitam o natal, mas não rejeitam as comemorações do “dia do pastor”, do dia da “esposa do pastor”, do dia do “gato e cachorro do pastor”; não rejeitam as “festas de aniversários de suas igrejas”, ou mesmo seus próprios aniversários, bem como outras “festividades”... Alguns deles, rejeitam o Natal por ser, segundo eles, de origem pagã, mas promovem FESTAS JUNINAS em suas "igrejas", embora tenham a mesma origem! E PASMEM: muitas igrejas que condenam o Natal já comemoram a "festa do Elohim", uma paródia do Halloween norte-americano, o dia das bruxas!!

Já vi muitos argumentos contra o natal e já estudei e analisei a grande maioria. É claro que ― como bem costumo afirmar ― não sou e nem pretendo ser o dono da verdade, e posso estar errado nas minhas conclusões. Estou aberto a correções e pronto a mudar de ideia e opinião sobre o assunto, desde que à luz da Palavra de Deus e de argumentações coerentes e isentas de radicalismos e extremismos cegos. Afinal, a Palavra de Deus é martelo que esmiúça a penha (Jr 23.29), e consequentemente também pode esmiuçar as minhas ideias equivocadas, conduzindo meus conceitos aos das Escrituras. Isto posto, permitam-me analisar algumas questões sobre o controverso assunto. 

A princípio, as Escrituras nos deixam livres para comemorar festas ou não, dependendo de nossa consciência. Paulo diz: "Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados..." (Cl 2:16). Se continuarmos a ler o texto, veremos muitas outras coisas que nos mostram que somos livres, e as pessoas que buscam nos dominar por qualquer pretexto são chamadas de pessoas de compreensão carnal (v. 18). Embora não haja nada nas Escrituras neotestamentárias que nos mande comemorar o natal, também nada existe contra tal comemoração.

Segundo os opositores do natal, antes de ser adaptada pelo Cristianismo e ser denominada como “natal”, esta festa era completamente pagã e idólatra: alguns afirmam que o dia 25 de dezembro seria o dia do nascimento do deus Sol, Mitra; outros, que era o aniversário de um rei pagão da antiguidade chamado Ninrode. A árvore, as guirlandas, os enfeites, a troca de presentes, a ceia etc, tudo teria origem igualmente pagã e idólatra. Inserir esta festa, portanto, no calendário de festejos da igreja, ou no nosso calendário pessoal, beira à apostasia, afirmam seus opositores. 

O primeiro grande erro que encontro nesta argumentação é julgar que a igreja não pode aproveitar nada da cultura pagã. Será que a igreja não pode redirecionar os costumes pagãos para a direção certa ― Jesus Cristo? Não é isso que ela vem fazendo, desde seus primórdios? Não foi isso, por exemplo, que ela fez em relação ao domingo, guardando-o em lugar do sábado judaico, mesmo considerando que no domingo o império romano reverenciava o deus sol?

Muitos costumes pagãos podem ser "aproveitados" para se honrar a Deus. Ou não?? Era um costume da maioria dos povos dizimar dos despojos de guerra aos seus deuses pagãos. Em "Heródoto 1.89", se afirma: "...exijam de tuas tropas os despojos, sob o pretexto de que é preciso consagrar a décima parte a Júpiter". Um dia, Abraão tomou esse costume pagão para honrar o Deus verdadeiro e o mesmo, na Lei, passou a ser uma instituição em Israel para o sustento do serviço no Tabernáculo e no Templo.

Analisemos também sob esta óptica a festa brasileira chamada carnaval: trata-se inegavelmente de uma festa pagã, imoral e carnal, como o próprio nome sugere. Mas se um dia, por ato miraculoso de Deus, a nação brasileira receber um avivamento sem precedentes, seu povo se converter a Cristo e decidir extinguir o carnaval, a igreja não pode aproveitar a festa e, direcionando-a para o Senhor Jesus, transformá-la em festa cristã? Não podemos extinguir os desfiles de escolas de samba e fazermos desfiles das nossas igrejas ― sem samba, sem orgias, sem bebidas, sem drogas e sem carnalidades ― mostrando através disto aos não conversos e ao resto do mundo, que bem conhecem o carnaval brasileiro, o poder transformador de Jesus Cristo? Afinal, de certa forma já fazemos isto nos retiros, onde transformamos o nosso carnaval em uma festa espiritual. 

Ora, se Paulo pôde enxergar em um altar oferecido a uma divindade desconhecida um lugar de adoração ao Deus cristão e uma oportunidade de pregar aos atenienses o Evangelho de Cristo, por que não poderíamos enxergar em uma data pagã uma oportunidade de adorarmos a Deus, dando-Lhe graças por nos haver enviado Seu Filho Jesus?

É importante compreender uma coisa: a comemoração do Natal pelos cristãos NÃO É a comemoração do aniversário de Jesus, e sim a comemoração pela Encarnação do Verbo. Nenhum cristão com o mínimo de conhecimento bíblico e orientação doutrinária sabe que não se comemora o aniversário de Jesus Cristo, até porque Ele NÃO NASCEU em 25/12. Comemoramos o milagre da Encarnação de Deus entre nós.

Em relação aos elementos “pagãos” do natal, vejamos: 

A ÁRVORE DE NATAL - Geralmente um pinheiro, natural ou artificial, adornado com luzes, bolas coloridas e outros enfeites. Uma das críticas que mais surge, o uso da árvore da natal como símbolo, atrai uma parafernália de suspeições e disparates.

Não vou discutir a possibilidade de origens pagãs que alguns invocam, não que consigam relacionar com o nosso uso do pinheiro de natal, mas relembrar que, segundo a tradição, foi o gigante da Reforma Martinho Lutero que, pela primeira vez trouxe para o seu lar um ramo de abeto o enfeitou com velas e papéis coloridos para celebrar em família a encarnação de Jesus. 

Há quem diga até que a silhueta da árvore e seus enfeites lembrem a imagem da Senhora Aparecida! Sem comentários... 

Àqueles que afirmam que a árvore de natal se trata de algo essencialmente pagão, lembramos que todas as árvores são criação do Senhor (Gn 1.11-12; 2.9; Sl 104.16), de sorte que o ato de enfeitar uma árvore com a finalidade de ornamentar o ambiente dificilmente pode ser considerado pecado. É bem verdade que muitos textos bíblicos mencionam que os homens adoraram deuses estranhos debaixo de árvores (2 Rs 17.10) e usaram a madeira destas árvores para fazerem ídolos (Is 44.14ss); entretanto, o pecado não estava nas ÁRVORES, e sim na adoração aos falsos deuses, que tanto podiam ser feitas debaixo de árvores ou longe delas. Estes atos de idolatria não desqualificaram as árvores como criação de Deus, e nem as desmerecem diante do Senhor e dos homens. Se assim fosse, ao crente seria proibido plantá-las em seu jardim ou quintal. Nenhum crente planta árvores e nem monta e enfeita uma árvore de natal com o objetivo de adorá-la, ou de adorar falsos deuses debaixo dela; antes fazem isso para enfeitar a sua casa e glorificar a Deus. 

Certa vez ouvi um pastor, em um importante e conhecido programa cristão de debates e entrevistas na tevê, afirmando que não devíamos ter árvores de natal porque os demônios se alojam na copa das árvores! Ah, ― pensei com os meus botões ― sendo assim, vou arrancar a árvore que tenho em meu jardim, para evitar que demônios se alojem no perímetro da minha casa! Afinal de contas, para que Deus criou as árvores?? E finalmente, de onde este “iluminado” tirou esta importante informação, já que a Bíblia não afirma tal coisa?? 

Esquecem-se os inimigos do Natal que teofanias (manifestações de Deus) no AT se deram debaixo de árvores. Abraão estava à sombra de um carvalhal quando o Senhor Se apresentou a ele na forma corpórea de três homens (Gn 18). Suponho que se as árvores fossem tão pecaminosas, o Sehor jamais Se manifestaria diante delas! 

OS ENFEITES - A maioria dos enfeites natalinos têm origem pagã. Isto pode até ser verdade. Contudo, o fato de um pagão se utilizar de determinados enfeites em seus rituais não desqualifica os enfeites para o uso cristão. Lembremos, por exemplo, que os pagãos usam flores para reverenciar os mortos (o que não é bíblico), mas nem por isso somos proibidos de usarmos flores para enfeitar nossos jardins ou o interior de nossas casas, em arranjos, vasos e jarros, ou dá-las de presente aos nossos queridos, geralmente em forma de buquês. Pagãos acendem velas para adorar ídolos e orixás, mas isto não torna pecado o fato de acendê-las à mesa, em um jantar romântico ou na comemoração de um aniversário, ou mesmo como substituiçao das lâmpadas em caso de falta de energia elétrica. O sentido do uso é o que determina a legitimidade deste uso. 

Nós, cristãos, usamos gravatas, desconhecendo talvez que este acessório é desenhado em nossos dias por estilistas pagãos, e até homossexuais. Mesmo assim usamos, e muitos ministérios exigem seu uso na igreja, principalmente dos seus obreiros e oficiais. Por que, então, não podemos usar os enfeites de natal, alegando serem de origem pagã? 

Por mais que um pagão use um objeto em seus rituais pagãos, podemos também usá-lo com finalidades cristãs. Quando o povo de Israel apostatava, afastava-se do Senhor e queimava incenso aos deuses estranhos, não desqualificava o incenso para o uso na adoração ao verdadeiro Deus, que poderia a qualquer momento, com a conversão do homem, ser novamente usado para cultuá-lO. 

Por que as pessoas que usam este tipo de argumento não retiram de suas casas quadros, esculturas e outros objetos fabricados ou pintados por pagãos, considerados obras de arte? Por que não abandonam os enfeites florais nas suas igrejas, já que flores são usadas em cemitérios para homenagear os finados no seu suposto dia, e em outras cerimônias pagãs, como nas oferendas a orixás? Lanço aqui um questionamento: será que estes enfeites são realmente do paganismo, ou eles pertencem a Deus e o paganismo lançou mão deles, usurpando a glória do Senhor? Não caberia, então, à igreja restaurar estes objetos para o culto ao Único e Verdadeiro Deus? 

A TROCA DE PRESENTES - Embora os contrários à festa de natal afirmem categoricamente que a troca de presentes tem origem pagã, este costume é claramente mencionado na Bíblia como sendo praticado pelo povo de Deus (1 Sm 10.27; Et 9.19, 22). O próprio menino Jesus recebeu presentes dos reis magos (Mt 2). Desde que o cristão não vá se endividar com este ato, não há nada de errado em presentear familiares e amigos e receber presentes em troca. Discordamos da obrigatoriedade de dar presentes a todos os parentes e amigos, do endividamento perdulário e irresponsável e da hipocrisia de amigos secretos que muitas vezes nem conhecemos, e só presenteamos porque o sorteamos... Mais uma vez, os incoerentes inimigos do Natal de Cristo não admitem a troca de presentes no Natal, mas recebem presentes em seus próprios aniversários, ou dão aos aniversariantes!

A CEIA - Como eu falei anteriormente, já ouvi pregações onde se afirmava que participar da ceia de natal é incorrer em pecado de glutonaria. Contudo, comer e se fartar em ocasiões festivas sempre foi ― e até os nossos dias é ― costume do povo judeu, apoiado e incentivado pelas Escrituras (Dt 12:20-21; 1 Rs 4:20; Ne 8:9-12; Et 9:19, 22; Ec 9:7). A igreja primitiva promovia a “festa do ágape” frequentemente, quando os irmãos se banqueteavam e tomavam a Ceia do Senhor. Portanto, afirmar que a ceia de natal é pecado baseado no argumento da glutonaria é um atestado de desconhecimento das Escrituras. 

Em relação à acusação de glutonaria, só podemos afirmar duas coisas: 

Primeiro, a glutonaria se caracteriza não pelo ato de comer festivamente, mas sim pelo comer exagerada e descontroladamente, de sorte que se o crente souber ter temperança à mesa, jamais incorrerá em tal pecado. Comer dentro das capacidades de seu apetite, sem forçar o corpo a receber comida em excesso, não é glutonaria, mas alimentação! 

Segundo, o próprio Senhor Jesus foi chamado de glutão pelos seus opositores, pois a Escritura afirma que ele se banqueteava com pecadores. Porém, Ele mesmo nos ensinou, e a seus acusadores, que “a sabedoria é justificada por todos os seus filhos”, e não pela aparência (Mc 11.19; Lc 7.34-35). 

O interessante, e digno de nota e de pena, é que os inimigos do Natal não fazem ceia natalina porque é glutonaria, mas se reúnem em churrascarias e pizzarias, em rodízios, para se deleitarem no mesmo pecado, e ainda apreoam a quantidade que comeram, como um troéu de sua glutonaria gospel!!! Chegam a dizer que "crente não bebe, mas come que é uma beleza!!"...

Estas são as principais alegações para que o crente não comemore o Natal. Contudo, quando analisamos cada uma delas de forma isenta e coerente, observamos a sua fragilidade. A verdade é que a maioria das pessoas NÃO QUER comemorar o Natal. É direito delas! Não comemorem. Todos são livres para comemorá-lo ou não! Mas daí a querer convencer a todos com argumentos tão infantis que o Natal é anticristão, é querer “forçar a barra”, é querer afirmar o que a Bíblia não afirma, é querer torcer os padrões do bom senso... 

Perguntamos aos opositores do Natal: já que vocês são tão contrários a toda cultura pagã inserida no Cristianismo, por que então ainda usam coisas pagãs em outras ocasiões diferentes do Natal? De forma incoerente, as mesmas igrejas e as mesmas pessoas que condenam o “paganismo natalino” utilizam muitas coisas, objetos, costumes e liturgias de origem pagã, às vezes sem nem mesmo se dar conta disso. Você, cristão, se beneficia com os feriados pagãos? Você aproveita as folgas proporcionadas pelo carnaval, feriados dedicados a santos católicos ou orixás afrobrasileiros, dia de finados e outras festas de cunho idólatra ou pagão? Por mais que se argumente que não se comemora o dia, apenas se beneficia da folga, não é um sinal de incoerência aproveitar-se de benefícios oferecidos por festas pagãs, diante de tanto radicalismo contra o natal? 

Vamos exemplificar esta conivência com o paganismo com outros fatos mais concretos, presentes no dia-a-dia dos crentes e das igrejas evangélicas: 

I - O DOMINGO ― o Primeiro dia da semana, dia de guarda da igreja cristã, para os que não sabem tem origem pagã. No império romano, era o dia do "Sol Invicto" (no calendário inglês é o “Sunday”, que literalmente traduzido é dia do sol), e até hoje os adventistas usam este argumento para desqualificar a guarda do domingo pela igreja em detrimento do sábado da lei mosaica. Com a “conversão” do imperador romano Constantino e a oficialização do Cristianismo como religião oficial do império romano no ano de 313, o Dia do Senhor, que JÁ ERA comemorado pela Igreja gentia desde os tempos apostólicos, foi oficializado como dia de descanso dos cristãos. Coincidentemente, o dia do Senhor era o mesmo dia do sol invicto do paganismo... Numa situação como esta, qual deveria ser a atitude correta da igreja primitiva? Mudar o dia do Senhor para o sábado judaico, para outro dia qualquer da semana que não coincidisse com o dia do sol invicto pagão ou entender que as culturas, mesmo sendo pagãs, podem ser absorvidas pelo Cristianismo e por ele transformadas? A igreja primitiva sabiamente optou por esta última linha de raciocínio, enquanto a igreja moderna a despreza! 

II - AS CERIMÔNIAS DE CASAMENTO ― Tomemos como exemplo as cerimônias de casamento que são realizadas nas igrejas evangélicas, das quais participam e se submetem até os mais radicais em relação ao “paganismo natalino”: 

1. O bolo tem origem pagã, e remonta os cultos à deusa Ártemis (a mesma deusa Diana citada em Atos 19.24ss). Os primeiros tipos de bolos doces eram feitos com farinha e mel e oferecidos a esta deusa como oferendas. Seria, portanto, pecado o crente comer bolo por causa da origem deste alimento!

2. O vestido branco de casamento tem origem nas vestes usadas nos sacrifícios humanos dos cultos pagãos, onde uma vítima teria que ser sacrificada aos deuses: uma virgem, que deveria usar uma roupa de cor branca que apontava para a condição de sua virgindade. Algumas igrejas mais radicais em nossos dias recusam-se a casar noivas de branco quando as mesmas notoriamente não são mais virgens, e da mesma forma viúvas, já que o vestido branco é sinal de virgindade... Isto sem falar nas superstições que existem em relação a esta vestimenta, pois até entre cristãos se observa o costume de não permitir que o noivo veja o vestido e nem a noiva vestida com ele antes da cerimônia, pois isso certamente vai trazer azar ao casamento... 

3. As alianças têm origem pagã. Acredita-se que elas surgiram entre gregos e romanos, provavelmente, vindo de um costume hindu que utilizava os aneis para simbolizar o casamento. Da mesma forma, seu uso no dedo anular da mão esquerda também é costume pagão e supersticioso: a tradição do paganismo afirma que elas devem forçosamente ser colocadas neste dedo, pois há uma veia que passa exatamente nele, e que desemboca diretamente no coração. Esta “informação” é desmentida pela anatomia. 

4. O ato da noiva jogar o buquê ao término da cerimônia também é um sinal de superstição e paganismo: a moça que o pegar será a próxima a se casar. Este “costume”, embora claramente supersticioso e pagão, nunca foi condenado nem abolido de nosso meio. A cada casamento cristão que formos sempre veremos um amontoado de moças, ansiando desesperadamente por alcançar o precioso “amuleto” que, como se fosse um Santo Antônio casamenteiro, vai garantir noivo e casamento rapidamente. 

5. A troca de cálices no brinde entre os noivos (quando ambos entrelaçam os braços ao beber o champanha ou o refrigerante) também é costume pagão, assim como o ato de o noivo dar de comer à noiva um pedaço de bolo, e vice-versa. Este costume tem suas origens nas alianças primitivas, significando "a minha vida entra na sua, e a sua entra na minha", e foi perpetuado no nosso tempo através da cultura pagã cigana. 

6. O ato de se jogar arroz na saída dos noivos também faz parte da tradição pagã. Os chineses praticam esta tradição há milênios em suas cerimônias de casamento, e estão declarando ao fazê-lo: “os deuses te abençoem, jamais deixando faltar arroz em tua panela” (o arroz é a base da alimentação do povo chinês). 

7. Enquanto argumenta-se que a ceia natalina é pecado de glutonaria, o que se pode dizer do jantar de casamento, que é igualmente uma forma de glutonaria?

8. Os presentes no natal são pecado e paganismo, mas são dados nos casamentos sem qualquer constrangimento. Inclusive, listas de presentes são estrategicamente deixadas em lojas da cidade, para "obrigar" os convidados a comprar presentes caros... 

9. A ornamentação da igreja e do salão de recepções inclui muitas coisas de origem pagã (estatuetas no bolo, lembrancinhas, etc), e muitos elementos do cerimonial foram originados das cerimônias católicas (marcha nupcial, a forma da entrada de noivos e padrinhos, vestes dos noivos, pajens e damas etc). 

10. Ao se chegar em casa, ou na suíte nupcial, o noivo carrega a noiva no colo, romanticamente... Que romantismo, que nada! Este ato era um ritual romano, que simbolizava não só a "posse" da mulher pelo marido (propriedade mesmo!) mas também o fim do culto dos deuses da família da noiva, que passaria a adotar os deuses do marido...

Resumindo: quase tudo o que ocorre, o que se faz e o que se usa numa cerimônia de casamento cristã tem origens nos costumes pagãos! Porém, até as igrejas mais radicais realizam casamentos nos moldes descritos acima, sem nenhum problema, questionamento ou constrangimento ― as mesmas igrejas cujos líderes rejeitam o natal por causa de seus “elementos pagãos e mundanos”! 

Que fique uma coisa bem clara: o problema não são os elementos de paganismo que foram incorporados às cerimônias de casamento (até porque NINGUÉM se casa em uma Igreja cristã com intenções pagãs), mas sim o LEGALISMO das pessoas que condenam elementos legítimos que um dia foram usados pelos pagãos. Não há nada de errado em se casar conforme o rito vigente. Portanto, caros legalistas, não se utilizem das informações que lhes passo para acrescentar aos vossos legalismos mais um fardo pesado para os ombros daqueles que são dominados por vocês e por suas sandices!

III - A MEDICINA - A Medicina é uma das ciências mais antigas desenvolvidas pelo homem. Nos registros históricos há relatos de atividade médica já na Antiga Grécia, na Civilização Egípcia, na China e outros locais. A princípio era baseada na manipulação de ervas e tratamentos naturais, muitas vezes com fundos místicos, aonde deuses e entidades eram invocados para, por meio das fórmulas aplicadas, curarem as doenças.

A Bíblia menciona médicos pela primeira vez por ocasião da morte de Jacó, quando José ordenou a seus servos médicos que embalsamassem o corpo de seu pai (Gn 50). O embalsamamento egípcio era algo ligado à cultura e à religião politeísta do país; era era preparação do corpo para a vida eterna ao lado do deuses do panteão egípcio, e era feito seguindo rituais da religião pagã egípcia.

Durante muitos anos a Igreja perseguiu os médicos, pois os mesmos além de fazerem rituais de feitiçaria, usavam cadáveres pra dissecação, numa profanação ao corpo humano, templo do Espírito Santo. Até hoje, as Universidades usam cadáveres para dissecação, negando-lhes um sepultamento digno.

De origem totalmente pagã, a medicina tem como símbolo o Bordão de Esculápio, relacionado a astrologia e que representa um deus pagão egípcio, até hoje patrono da medicina.

Da mesma forma, o crente que não comemora o natal por ter origem pagã também não pode fazer uso da medicina, que também é pagã. Eles devem contar apenas com o poder da oração e da fé.

Outro detalhe pagão ligado à medicina é a FARMÁCIA, estabelecimento para onde somos imediatamente encaminhados apos a consulta médica. Este nome tem origem na palavra grega φαρμακεια (pharmakeia), que no NT é traduzida como FEITIÇARIA (Gl 5:20). Como se não bastasse se consultar com um médico (ato pagão de pacto involuntário com o diabo e demônios), quando vamos à farmácia acrescentamos pecado a pecado, pois praticamos, mesmo sem saber, o pecado da feitiçaria! Da mesma forma que demônios são adorados de forma inconsciente ao se armar uma árvore de Natal, também o são quando vamos a um médico ou farmácia, já que a origem origem de ambos é pagã.

Mais um detalhe maligno associado à medicina é a ENFERMAGEM. Quem estudar sobre as origens das enfermeiras, saberá que as primeiras "profissionais" da área foram recrutadas entre as PROSTITUTAS, o que associa inexoravelmente à prostituição e imoralidade sexual. Não é possível que alguém que se diga cristão aceite tal prática! Além disso, a enfermagem, entre os séculos V e VIII, surgiu entre os religiosos católicos como um sacerdócio. Ou seja, tem origem pagã!!

Assim, seguindo a mesma linha de que o Natal não deve ser comemorado por ter origem pagã, os crentes que demonizam esta festa, devem fazer o mesmo com a MEDICINA, a ENFERMAGEM e a FARMÁCIA. Sejamos coerentes!!

IV - A PRÁTICA ESPORTIVA - A prática esportiva teve início remoto. Já havia monumentos de vários estilos esportivos dos antigos egípcios, babilônios e assírios com cenas de luta, jogos de bola, natação, acrobacias e danças.

Entre os egípcios, a luta corpo-a-corpo e com espadas surgiram por volta de 2.700 a.C. e eram exercícios com fins militares. Outros jogos tinham caráter religioso, relacionado a antigas religiões pagãs, de adoração a deuses.

Finalmente, chegamos à Grécia, aonde os Jogos Olímpicos foram criados. Os esportes praticados nestes jogos tinham a intenção de adorar os deuses do Olimpo! Os vencedores, eram tratados como "deuses por um dia", honrados por Zeus e pelos demais deuses do panteão!

Os esportes promovem a disputa, o instinto maligno de se provar que é superior ao outro. Isso nem de longe é uma prática cristã!

Caro irmão que não comemora o natal por ser de origem pagã, fuja de todo tipo de pratica esportiva! Futebol, vôlei, luta, jogo de peteca, tudo isso tem origem na idolatria de deuses pagãos!

V - AS UNIVERSIDADES - Você sabia que as universidades têm origem pagã? Na idade média, a Igreja Católica, em pleno domínio pelo medo, afundada em dogmas, dá inicio às primeiras Universidades, sempre tendo como objetivo inicial manter o domínio das mentes através do monopólio intelectual. Essa época coincide com a era negra da igreja cristã.

Portanto, você caro irmão evangélico, que não comemora o natal por ter origem pagã, não pode frequentar cursos universitários, pois são igualmente pagãos! A mesma Igreja Católica que deu ao mundo o São Nicolau (o papai Noel), deixou como legado as Universidades! Se um é pecado, o outro também o é!!

VI - OS CURSOS TEOLÓGICOS - Se você cursou cursou teologia e não comemora o natal, por alegar que teve origem pagã, preciso te lembrar que a disciplina "HERMENÊUTICA", que se estuda tanto na teologia quanto no direito, também tem origem pagã, pois este nome vem do "deus" Hermes, o intérprete dos "oráculos divinos".

VII - O USO DE VELAS - Você já usou velas em cima do bolo de aniversário como indicativo da idade do aniversariante? Já participou de algum jantar a luz de velas? Acende-as quando o fornecimento de energia elétrica é suspenso? Para algumas seitas e religiões como a católica, as orientais e as afrobrasileiras, velas acesas têm significados místicos e ritualísticos. Já observou as marcas comerciais da grande maioria de velas existentes no mercado? Quase todas têm nomes de santos ou entidades veneradas por religiões. As velas colocadas em cima de um bolo de aniversário também surgiram na época dos deuses antigos, pois as pessoas acreditavam que a fumaça das velas levava as preces dos fiéis até o céu, além de proteger o aniversariante de espíritos ruins e garantir sua proteção para o ano vindouro.Contudo, nós não comemoramos aniversários nem participamos de jantares românticos no intuito de fazer rituais espirituais nem honrar santos e entidades, e sim de celebrar datas especiais. Portanto, não vemos mal em acender as velas do bolo e, no escuro, cantarmos "parabéns pra você", comemos doces, salgadinhos, tomarmos refrigerante etc, e muitas vezes fazemos a “festinha” na igreja, em suas dependências ou até mesmo no templo. Outras vezes, nos utilizamos das velas para, na ausência da energia elétrica, iluminarmos o ambiente. Não fazemos nada disso com finalidade pagã, e sim cristã. 

VIII - FOGOS DE ARTIFÍCIO - Certamente você já soltou algum artefato destes... Se não o fez, já deve ter se encantado com shows pirotécnicos, principalmente os promovidos na chegada de um ano novo. Mas você conhece a origem dos fogos de artifício? Foram criados na China antiga, com a finalidade de “espantar” e afastar os maus espíritos em rituais pagãos... Na sua origem, não tinha nada a ver com comemoração, e sim com paganismo. Mas eu não creio que ao soltar um rojão você o tenha feito com esta intenção. Pelo contrário, você sabe que a única coisa que realmente “espanta” um demônio é o poder do nome de Jesus. Não há nenhum mal em soltar fogos para se comemorar alguma coisa (como um gol de seu time ou a chegada de um novo ano), pois o fazemos em momentos de alegria e festejo, e não com intenções ritualísticas. 

IX - OS ANJOS – Você já assistiu em sua igreja alguma apresentação teatral onde pessoas desempenharam papel de anjos? Certamente os mesmos traziam asas às costas. Mais um indício de paganismo! A associação de anjos e asas vem da cultura pagã grecorromana, e foi absorvida pela igreja desde a Idade Média. Esta imagem vem do deus pagão Eros (o cupido que tanto conhecemos), que é representado como uma criança com asas. A Bíblia relata que existem classes de anjos, entre elas os serafins descritos em Isaías capítulo 6, que possuem asas. Contudo, sempre que os anjos se revelaram aos homens o fizeram na forma humana, sem asas (exceto aos profetas, únicos a verem querubins e serafins). Em Hebreus 13:2 é mencionado que “alguns, sem saber, hospedaram anjos”, falando nitidamente em Abraão e Ló; porém, se um anjo aparecesse em suas casas com um par de asas às costas, inexoravelmente seriam reconhecidos como anjos! Concluímos que eles se manifestam aos homens em forma humana normal, sem asas. Anjo com asas é coisa de paganismo. 

X - O BATISMO - Para aqueles que não sabem, o batismo também tem origem pagã! Era usado na Babilônia e no Egito em conexão com crenças supersticiosas, associado à purificação, e até hoje muitas religiões ainda adotam tais rituais de purificação, como o hinduísmo. A Bíblia menciona tal ato associado ao paganismo por ocasião da transformação das águas do Nilo em sangue por Moisés, o que ocorreu num destes rituais praticados pelo Faraó, quando este deixava seu palácio e saía a se banhar nas águas do rio Nilo, em ritual de purificação (Ex 7.14-15). Mas nem por isso a cerimônia de batismo deixou de ser praticada por João Batista, nem deixou de ser ordenada por Jesus para a igreja, nem deixou de ser praticada pelos primeiros cristãos e por toda a comunidade cristã desde a sua origem, que o adotaram com uma motivação inteiramente diferente da dos pagãos. 

XI - O TRIO ELÉTRICO – É desnecessário dizer que esta parafernália sonora também tem origem pagã. Foi criado na Bahia na década de 1950 por Dodô e Osmar, com a exclusiva finalidade de animar o carnaval (na verdade, foi criado na Paraíba na década de 1930 por Newton Monteiro, pelo major Ciraulo e por um grupo de músicos e empresários pernambucanos, para a mesma finalidade carnavalesca... Poucas pessoas sabem deste comprovado detalhe histórico), mas hoje é comumente usado em passeatas evangélicas, cultos ao ar livre, evangelismos etc. É errado a igreja utilizar este recurso sonoro só pelo fato de ter origem e finalidade pagãs? Claro que não! Aqui se vê que a intenção do uso muda completamente o sentido das coisas, e mesmo quando as coisas são criadas por pagãos para finalidades pagãs, podem perfeitamente ser usadas por cristãos para finalidades cristãs. 

XII - INSTRUMENTOS MUSICAIS E EQUIPAMENTOS DE SOM – A franca maioria deles foi criada por pagãos e com finalidades pagãs, como por exemplo a guitarra e o baixo elétrico, criados para as bandas de rock mundanas. Meus pais me contaram que, na sua mocidade, o violão não podia ser usado na igreja porque era instrumento de boêmios e beberrões, usado por pecadores em suas orgias! Na igreja, só podiam ser usados o piano e o órgão. Hoje, até mesmo instrumentos como atabaques e tambores, de origem africana e usados em seus rituais, já foram incorporados às bandas de nossas igrejas. O mesmo se aplica aos equipamentos de som, como microfones, amplificadores. Achar que eles foram criados para servir a Deus é, no mínimo, ingenuidade; antes foram desenvolvidos para amplificar ao máximo os sons das bandas mundanas. Quando foram criados, eram até proibidos de serem usados nas Igrejas, exatamente por este motivo! Hoje, os usamos sem problemas. 

XIII - MÚSICAS – O que dizer sobre as músicas que cantamos em nossas igrejas? Quase todos os gêneros musicais existentes já são utilizados para o louvor do Senhor. Seria isto válido? Em relação ao rock, um dos seus autores mesmo chegou a afirmar que o diabo era o pai deste gênero musical (é lógico que não estou afirmando nem referendando isso!)... O funk, música comprovadamente direcionada a práticas sexuais libertinas, já é usado nas igrejas para louvar a Deus. Isto sem citar o forró, o reggae, o rap e o hip-hop... E até a dança e a expressão corporal, antes consideradas como coisas mundanas, já são apresentadas nas igrejas para louvar ao Senhor. E pra "fechar com chave de ouro" a medida do paganismo de nossa geração, MÚSICAS SECULARES, compostas para entretenimento, são usadas nas Igrejas, mudando-se somente a letra!!

Mencionamos apenas algumas coisas, alguns costumes e objetos, que foram indubitavelmente criados por PAGÃOS para finalidades PAGÃS, mas que são normalmente usados por cristãos. Não as mencionamos para desmoralizar ou desestimular suas práticas em nosso meio, mas para mostrar o absurdo do argumento que afirma que a origem pagã desautoriza o uso por cristãos. Se abandonamos o Natal por ter origem pagã, deveríamos, por coerência, abandonar as cerimônias de casamento, a medicina e as demais coisas citadas acima!

O uso ou a prática de nenhuma destas coisas citadas absolutamente se constitui em pecado, pois enquanto o homem vê o exterior, o Senhor vê a intenção do coração. Podemos ver isto observando a atitude da mulher pecadora que de coração inteiro ungiu os pés do Senhor e enxugou-os com os cabelos (Lc 7.36ss). Expor os cabelos era coisa que, na época, era vergonhoso fazer em público. Somente o marido podia ver os cabelos da mulher, e só mulheres pecadoras expunham seus cabelos na presença de estranhos. Ela o fez como intrusa na casa alheia, atrapalhando e constrangendo o ambiente do jantar oferecido por Simão, o fariseu, ao Senhor Jesus. Foi duramente criticada e condenada pelos fariseus por causa deste ato, mas amorosamente defendida pelo Senhor, e teve sua oferta de amor plenamente aceita por Ele. 

Muitos outros exemplos poderiam ser citados aqui, de coisas que foram criadas por pagãos e usadas pelo paganismo, mas que são usadas hoje em nosso dia-a-dia, em nossas casas e em nossas igrejas, sem questionamento algum dos mais radicais. Afinal, “do Senhor é a terra e sua plenitude, o mundo e os que nele habitam” (Sl 24:1). Nenhum cristão em são juízo usaria objetos pagãos com intenção pagã, e sim com intenção cristã de adoração e louvor ao Senhor. Paulo referenda o uso com intenção correta quando afirma que “quer comais, quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus” (1 Co 10:31). Se um feiticeiro usa flores em suas bruxarias, isso não nos desautoriza enfeitar os púlpitos e naves de nossas Igrejas com as mesmas flores! Se perfumes são usados para oferendas à deusa o mar, nem por isso devemos deixar de usá-los!

Mas então, por que os “radicais de plantão” não conseguem aceitar a festa de natal? Basicamente por RADICALISMO e EXTREMISMO, visto que as evidências e o bom senso não desqualificam a festa de natal... 

Vejamos outros argumentos que os opositores usam para tentar provar que o Natal é pagão e antibíblico: 

JESUS NÃO NASCEU EM 25 DE DEZEMBRO - A data da comemoração do Natal talvez seja o aspecto mais controverso a respeito do nascimento de Jesus. Aprendi desde cedo que esta não seria a data mais apropriada, porque seria impossível Jesus ter nascido neste período do ano. Os pastores estavam no campo, que inviabilizaria a possibilidade de ser Dezembro, um mês de frio intenso na região. É mais provável, segundo alguns estudiosos, que o Senhor Jesus tenha nascido em meados de abril ou maio. 

Alega-se que a data foi "emprestada" do paganismo. Entretanto, quem estuda história da igreja sabe que sempre foi prática da igreja dos primeiros séculos tomar datas, lugares e símbolos de religiões e cultos pagãos, não para sincretismo, mas para demonstrar a superioridade do Cristianismo e do Deus que adoravam. 

Acontece que, de onde menos se esperava surgem agora dados que podem oferecer à data possibilidade verossímil. O professor S. Talmon da Universidade de Jerusalém, baseado em documentos encontrados em Qumran, conseguiu precisar as 24 ordens cronológicas das classes sacerdotais. A de Abias é que nos interessa, porque com esta ajuda sabemos que o pai de João Batista, Zacarias, terá servido no templo entre 23 a 25 de Setembro. Este anúncio da concepção de Isabel que, de acordo com o Evangelho de Lucas, nos oferece a precisão cronológica diferenciada em seis meses em relação à concepção de Maria, o que aponta o nascimento de Jesus para o mês de Dezembro. 

Mas vamos desconsiderar tal informação. Digamos que realmente Jesus não tenha nascido em Dezembro, como é a opinião da maioria dos estudiosos. E DAÍ?? A grande maioria dos que comemoram o Natal sabem que Jesus dificilmenter nasceu nesta época. Se Ele nasceu em data incerta nada impede que seja comemorado seu nascimento em outra data conveniente à igreja. Até bem pouco tempo nos sertões brasileiros, onde muitas vezes é difícil se registrar um recém-nascido dadas as distâncias dos cartórios e comarcas, seu registro muitas vezes só é feito muito tempo depois, em alguns casos anos à frente, quando muitas vezes ninguém nem mais lembra a data exata do nascimento; algumas vezes, a pessoa só é registrada já adulta! Mas isso não impede que seja fixada uma data fictícia, feito o registro e anualmente se comemore o nascimento da pessoa. Ademais, o que fazer para se comemorar o aniversário de alguém que nasceu em 29 de fevereiro? Só devemos fazê-lo a cada quatro anos? Um outro exemplo disso é o descobrimento do Brasil; é comemorado em abril, mas todo mundo sabe que ocorreu antes... 

Mas isto é fácil de se resolver: basta os opositores do Natal compreenderem que NÃO COMEMORAMOS O ANIVERSÁRIO DE JESUS, e sim o fato de o Verbo ter encarnado, ter-Se feito igual a nós! Separamos, desde o início do Cristianismo, o dia 25 de dezembro para tal comemoração. Assim como um dia o homem (Adão) quis ser igual a Deus, o Filho de Deus quis Se fazer igual a nós! Não se trata de um aniversário, mas da comemoração do ato de Cristo Se fazer carne por amor de nós! 

Se os opositores do Natal insistirem no excsso de zelo relacionado à data exata da comemoração natalina, por que não têm o mesmo zelo em relação à Páscoa? Esta festa judaica é também comemorada pelos evangélicos, mas se aplica numa situação parecida com o Natal: para a igreja é uma festa móvel, enquanto na Bíblia deve ser uma festa fixa, com sua data determinada pelo próprio Deus, conforme Êxodo 12, Levítico 23:4-8 (No primeiro mês, aos catorze dias do mês). Com o passar dos anos o homem mudou a data, tornando-a móvel, por causa das suas conveniências (basta observar que TODOS OS ANOS a Páscoa é comemorada em dias diferentes!)... Logo, a nossa comemoração da Páscoa se dá de forma diversa ao que foi determinado nas Escrituras.  Isto não estaria errado, comparando-se ao tão combatido Natal? Comemora-se em data incerta (assim como o Natal) e em data móvel (quando o próprio Deus a fixou no primeiro mês do calendário judaico, dia 14)... 

E por que então os inimigos do Natal comemoram o Ano Novo em 1º de Janeiro, já que no calendário judaico este dia NÃO É o dia de Ano Novo? Por que as Igrejas opositoras do Natal, que alegam que a data do Natal não é a data exata do nascimento de Jesus, não se constrangem em comemorar o Ano Novo ocidental, já que também não é a data bíblica exata de ano novo?? 

JUDEUS NÃO FAZEM COMEMORAÇÃO DE SEUS ANIVERSÁRIOS - Por esta razão, os opositores alegam que nós também não deveríamos comemorar o aniversário do Senhor Jesus. Contudo, não há nada na lei mosaica que proíba judeus comemorarem seus aniversários, ou que trate tal comemoração como pecado; apenas tais comemorações não fazem parte da cultura judaica, e por isso eles não o fazem. Mas a Lei não impede que um judeu comemore seu dia natalício. 

É interessante observar que os judeus israelitas convertidos ao Cristianismo não comemoram seus próprios aniversários, mas anualmente suas igrejas comemoram o Natal, e eles participam normalmente, celebrando o nascimento do Messias da mesma forma que nós... 

Nós não somos judeus; somos brasileiros, e nesta qualidade temos a nossa própria cultura, e nela os aniversários são comemorados, independentemente de judeus ou qualquer outro povo comemorarem ou não. É por isso que os judeus brasileiros comemoram seus aniversários, pois mesmo sendo judeus, sua parte brasileira fez com que absorvessem parte de nossa cultura, e nem por isso o Judaísmo os considera pecadores!

O Evangelho deve ser uma bússola, que direciona todas as culturas para o Senhor Jesus Cristo. Qualquer pessoa que já leu um bom livro que relate experiências de missões transculturais sabe que um dos maiores desafios dos missionários atuais é apresentar Jesus e a mensagem do Evangelho dentro da própria cultura do povo que se deseja alcançar para Cristo, sem aniquilar a cultura nativa. As agências de missões do mundo inteiro aboliram há muito a prática da imposição cultural, onde a cultura nativa é anulada ou aniquilada por um preconceito que impõe nossa cultura “superior”. Hoje há respeito pela identidade cultural dos povos. Devemos fomentar somente o abandono de práticas que contradigam a verdade das Escrituras, como por exemplo a poligamia. 

Em relação ao uso deste argumento, o mínimo que poderíamos esperar de pessoas que aceitam argumento tão infantil seria um pouco de coerência, ou seja, que também não comemorassem os seus próprios aniversários! Mas este fato não ocorre; conheço muitas pessoas contrárias ao natal, mas que comemoram normalmente seus aniversários, com tudo o que têm direito! 

JESUS NÃO MANDOU QUE COMEMORÁSSEMOS O SEU NASCIMENTO, MAS A SUA MORTE - É verdade! E Ele também não mandou que fizéssemos vigílias, nem que fizéssemos reuniões de oração em montes (Ele orava nos montes sempre sozinho, e nunca recomendou aos seus discípulos que o fizessem!), e também não nos mandou fazer retiros, acampamentos... Ele não mandou que construíssemos templos... Não há nada nas Escrituras que nos mostre que Ele queria que vestíssemos obrigatoriamente paletós e gravatas nos cultos... Nunca encontrei na Bíblia Ele orientando a igreja a promover círculos de oração, e mandando que frequentássemos Escola Dominical, Seminários e cursos bíblicos. Ele não mandou que os novos convertidos passassem por nenhum tipo de curso para serem batizados... Ele não mandou que servíssemos a Ceia somente aos batizados... Ele não prescreveu que deveríamos introduzir instrumentos musicais no culto,nem formar bandas, grupos de louvor, corais etc...E muitas outras coisas Ele não nos mandou fazer, mas mesmo assim as fazemos para Sua honra e glória, e nem por isso estamos incorrendo em pecado... Por que então Jesus consideraria pecado o simples fato de, conforme nossa cultura, comemorarmos Seu nascimento? Homens e anjos comemoraram naquela noite sagrada; por que nós seríamos proibidos de nos alegrar, recordando nos dias de hoje a mesma ocasião? 

Se, conforme o raciocínio dos anti-Natal, só podemos comemorar datas expressamente prescritas na Bíblia e que nela nos tenha sido ordenado que as comemoremos, perguntamos: aonde está na Bíblia, claramente, a orientação de se comemorar o aniversário do Pastor, ou o aniversário de fundação da Igreja local? Aonde Jesus nos manda comemorarmos o Dia do Pastor, o Dia da Bíblia, Dia de Missões e de Missionários, Domingo da Igreja Perseguida etc? Aonde nos foi mandado fazer cultos especiais de Ano Novo? Será que estaríamos dispostos a abandonr todas estas comemorações por não terem sido ordenadas, ou podemos entender que podemos fazê-las para a glória de Deus, mesmo não havendo qualquer menção bíblica para tais comemorações?

E de onde vem o raciocínio que Jesus, por não ter mandado comemorarmos Seu nascimento, considerou tal comemoração um pecado? Usando um raciocínio parecido, algumas pessoas contemporâneas dEle julgaram uma mulher que derramou em Seus pés um perfume caríssimo... Jesus não a repreendeu, mas repreendeu seus julgadores, que foram incapazes de compreender o ato de amor e adoração daquela mulher. Os opositores do Natal são exímios julgadores daqueles que buscam honrar a Cristo através da festa natalina, são incapazes de enxergar a adoração por trás da gratidão do homem pela encarnação do Cristo!

O NATAL É UMA FESTA COMPROVADAMENTE DE ORIGEM PAGÃ – Será?? Bem, vamos considerar que isto seja verdade... Mas é necessário que compreendamos que nem tudo o que vem do paganismo deve ser sumariamente desprezado. José, governador do Egito, era inquestionavelmente um servo de Deus, mas quando seu pai, o patriarca Jacó, faleceu, ele ordenou aos médicos do Egito que o embalsamassem segundo o costume pagão dos egípcios (Gn 50:2-3). O próprio Jacó bem podia ter previsto esta intenção de seu filho, e previamente proibi-lo de submeter seus restos mortais a cerimônias e costumes pagãos ― afinal, antes de morrer deixou ordens expressas e detalhadas sobre o seu sepultamento (Gn 49:29-33) ― mas não o fez. Mais tarde, o próprio José foi embalsamado (Gn 50:26), e deixou somente instruções de que deveria ter seu corpo levado para a terra da promessa. Nenhum de seus irmãos ou descendentes questionaram seu embalsamamento, nenhum profeta posterior reprovou sua atitude pagã, mesmo considerando que esta prática contraria vários costumes judaicos relacionados ao sepultamento, como [1] a prática de enterrar o corpo, ou colocá-lo em um sepulcro, para ser decomposto em contato com a terra, [2] costume de sepultamento rápido (que até os dias de hoje vigora entre as culturas do Oriente Médio, onde os corpos são sepultados o mais imediatamente possível após a morte) e [3] a existência de rituais no processo de embalsamamento egípcio, que apontam para a sua religião e os seus deuses. Considerando estes fatos, será que houve pecado, pelo fato de José ter seguido os costumes de um povo pagão, idólatra e politeísta? Hoje, muitos líderes evangélicos se levantam até contra a cremação por se tratar também de cultura pagã (hindu), mas esquecem que José não menosprezou a cultura egípcia.

Acho interessantíssimo este interesse em não se comemorar nenhuma festa que tenha qualquer indício de origem pagã! O que chama a atenção é que muitas igrejas não comemoram o Natal porque tem origem pagã, mas outras festas (tais como: Aniversário da Igreja, Aniversário do Grupo de Oração, Aniversário do Conjunto dos Jovens, Senhores, Senhoras etc, Dia do Pastor, Dia da Bíblia, Dia de Missões e de Missionários, Cultos especiais de Ano Novo, Balada Gospel, Halloween Gospel, Carnaval Gospel, Rave Gospel, Acampamento Gospel, Luau Gospel, Boate Gospel, Festa Junina Gospel, Festas Judaicas Gospel e muitas outras) são comemoradas e promovidas na Igreja, embora a maioria, senão todas, tem alguma origem pagã!! PODE TUDO, mas o NATAL não pode, pois é de origem pagã!

NA BÍBLIA NÃO HÁ RELATOS DE COMEMORAÇÃO DE ANIVERSÁRIOS - Tal raciocínio é muito usado pelas Testemunhas de Jeová, que afirmam ainda que os únicos na Bíblia que comemoraram seus aniversários foram pagãos e ímpios (Faraó do Egito no AT e o rei Herodes no NT), o que faz com que tais comemorações sejam proibidas aos cristãos. Este argumento, entretanto, carece de substância, pois o fato de um ímpio ter feito algo não me desautoriza a fazê-lo, nem faz com que este ato se torne pecado. Não existe nenhuma menção contrária na Bíblia à comemoração de datas natalícias. Além disso, a Escritura dá a entender que os filhos de Jó comemoravam seus aniversários (Jó 1:4-5), e essas comemorações duravam vários dias. Observemos que Jó em momento algum proibiu seus filhos de fazerem suas festas, mas apenas os santificava no término delas, para, NO CASO DE NO DECORRER DESTAS COMEMORAÇÕES seus filhos tenham feito alguma bobagem, alcançassem o perdão. O problema não eram as comemorações, mas a POSSIBILIDADE de terem cometido algum excesso! E mesmo Jó aceitando as comemorações natalícias de seus filhos, Deus testemunhou que ele era um homem reto e íntegro (Jó 1.8). Somos livres para comemorações festivas, desde que lembremos dos princípios da Palavra de Deus para as nossas vidas no decorrer destas comemorações.

E por que, já que na Bíblia não há relatos de aniversários, comemoramos os nossos, ou os do nosso pastor, ou o aniversário da Igreja, do Grupo de Homens, de Mulheres, de Crianças, da Mocidade, do Grupo de Louvor etc?

O NATAL É IDOLATRIA - Alguns afirmam categoricamente que celebrar o Natal, ou mesmo enfeitar a casa neste período com enfeites natalinos está incorrendo em pecado de IDOLATRIA. Neste aspecto, cito a opinião do Pr. Ciro Zibordi: 


À luz das Escrituras, o pecado da idolatria nunca é praticado de modo inconsciente. Quem adora imagens de escultura como se fossem deuses, mesmo fazendo isso por ignorância, fá-lo de maneira intencional, consciente. Quem adora Mamom, da mesma forma, faz isso porque o seu coração está nas riquezas (Mt 6.19-24). Quem idolatra o mundo, como o desviado Demas (2 Tm 4.9), também coloca, de modo consciente, as coisas mundanas no lugar de Deus (1 Jo 2.15-17; Tg 4.4-8). Se a idolatria é um pecado praticado sempre de modo consciente — ou seja, o idólatra peca objetivamente, pondo o objeto de sua idolatria no lugar de Deus —, por que chamar de idolatria o ato de enfeitar uma casa com um pinheirinho, luzes e bolas coloridas? Afinal, o cristão que faz isso está, consciente e objetivamente, colocando a decoração do Natal secular no lugar de Deus? Ou ele faz isso porque gosta desse período de confraternizações, aprecia o belo e quer externar sua alegria?

Sobre a consciência absoluta para a idolatria se concretizar como pecado, chamamos a atenção para a história de Naamã, que após ser curado de lepra admitiu que suas obrigações profissionais exigiam que ele entrasse na casa do deus Rimon e se encurvasse juntamente com o rei (2 Rs 5:17-19). Naamã, daquele momento em diante, decidiu servir ao Senhor, mas antevendo a idolatria relatou a Eliseu suas obrigações profissionais, e recebeu um sonoro "Vai em paz!" como resposta. Em outras palavras, mesmo encurvando diante de Rimon, era a intenção do seu coração que determinava se ele estava praticando ou não a idolatria!

Mas uma coisa, no fim de tudo, é digna de nota e observação: por que será que não vemos UM ÚNICO TEÓLOGO OU PASTOR SÉRIO perder tempo com as fábulas relacionadas ao paganismo do Natal, da árvore, dos enfeites etc? Nunca vi um único artigo do dr. Russell Shedd, do rev. Augustus Nicodemus Lopes, do rev. Hernandes Dias Lopes, ou de John Pipper ou ainda do Paul Washer, discorrendo sobre a origem pagã do Natal, da árvore ou da comemoração... Por que será que Martinho Lutero, João Calvino, Jacó Arminio, Ulrico Zwinglio, Jan Huss, CharlesSpurgeon, John Wesley, John Bunyan, George Whitefield, ou qualquer outro expoente entre Reformadores, Puritanos, Avivalistas ou outros grandes pregadores da História da Igreja, nunca se preocuparam com tão importante assunto, discorrendo em seus livros ou sermões contra tão nefastos costumes pagãos em nosso meio? Por que será que somente os expoentes neopentecostais, e isso só de 30 anos pra cá, é que descobriram que o Natal é uma das piores mazelas do Cristianismo?

Sou plenamente a favor da comemoração do Natal. Levanto-me, sim, contra o pseudonatal que tentam nos empurrar goela abaixo: o Natal da hipocrisia e da falsidade dos “amigos-secretos”, do consumismo desenfreado e irresponsável, onde eu uso meu salário e décimo-terceiro para fazer compras, compras e mais compras... E se os dois salários forem insuficientes, vamos ao cartão de crédito, aos cheques predatados e ao crediário! O importante é não deixar ninguém sem presentes nesta bela data... E haja amigo-secreto, amigo-doce, amigo-da-onça, confraternizações, roupas e calçados novos... E haja endividamento! 

Não!! Este não é o meu Natal, e nem o natal do Senhor Jesus. O meu Natal ― o verdadeiro Natal ― consiste em reconhecer o mistério do Deus Eterno que “aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” (Fp 2:7-8), e que “Aquele que se manifestou em carne, foi justificado em espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, e recebido acima na glória” (1 Tm 3:16). O Natal consiste em crer que, graças a esta encarnação e este Sacrifício Vicário, as portas do céu se abriram para mim! O meu natal particular se deu em 31 de janeiro, data em que eu convidei o Senhor Jesus a morar em meu coração e dirigir os meus passos. Zaqueu também teve um dia o seu natal particular, recebendo o Senhor em sua casa e em sua vida, deixando que Ele o guiasse. Isto o levou a tomar duas decisões importantes: modificar seu modo de vida, demonstrando que a riqueza não era mais o centro de sua vida (decido dar aos pobres metade de meus bens) e corrigir os erros do passado, passando doravante a pautar sua vida de acordo com a Palavra de Deus, com atitudes dignas de um homem arrependido (se a alguém defraudei, restituo-o quadruplicado). Anualmente, em 31 de janeiro, eu me recordo do dia de minha conversão e me alegro por este natal pessoal, mas nada me impede de comemorá-lo em uma data comum a todos os demais cristãos, enfeitando minha casa e ceando com minha família e amigos. 

Celebremos a Encarnação do Verbo Eterno em família, com amor e união. E na hora da festa, não deixemos de dar graças e cear com alegria e singeleza de coração, sem ostentações. Abramos as portas de nosso lar para os amigos menos afortunados, acolhamos o pobre e o necessitado. Os enfeites, a árvore e as lâmpadas coloridas são apenas detalhes, são meros enfeites, como os quadros e jarros de flores que minha esposa usa para decorar a casa. Nem um nem outro são pecados. Procuremos, contudo, retirar do nosso lar os símbolos que visivelmente não pertencem a um Natal cristão.

Jesus é o mais importante do Natal! Há um hino antigo, que cantávamos em nossa igreja na minha adolescência ― não sei o autor, nem o título ― que diz tudo a respeito do natal... 

No natal, a gente sempre agradece / por Jesus ter nascido em Belém,
Mas nem sempre se lembra na prece / que Ele nasce na gente também.
E nos livra de todo o pecado / e de tudo o que há de ruim.
Obrigado, meu Jesus querido / por nascer aqui dentro de mim. 

Que cada um de nós possa cantar este hino (mesmo sem saber a melodia... Invente uma!) com todo o nosso coração! 

terça-feira, 8 de novembro de 2016

A IGREJA É UM HOSPITAL, E NÃO UM TRIBUNAL


"A igreja é um hospital, e não um tribunal!", muitos gritam a plenos pulmões. Isso mesmo! Grito junto com vocês, junto minha voz à de vocês, faço coro convosco! 

Você já foi a algum hospital na condição de paciente? Eu já fui! Há alguns anos contraí uma pneumonia e precisei ser internado. Passei 4 dias por lá... E posso descrever o que é um hospital!

Odeio agulhas, mas me enfiaram algumas no corpo. Pra começar, um "acesso" (agulha para soro), por onde seriam administrados os medicamentos intravenosos. Várias vezes coletaram meu sangue para exames, em local diferente do "acesso". Quando este "acesso", por duas vezes, saiu da veia, teve que ser recolocado, mesmo sob meus protestos! Na última vez, foi preciso que me aplicassem um sedativo! 

Odeio remédios, mas me deram vários, e alguns eram amargos e provocavam efeitos colaterais. 

Odeio injeções, mas me prescreveram uma que devia ser aplicada no músculo, de 12 em 12 horas, tratamento que se estendeu ainda por uma semana após a alta. 

Odeio dietas, mas me prescreveram uma, que durou todo o período de internação e ainda se estendeu por mais algum tempo. 

Odeio comida de hospital, mas não me deram a opção de pedir que me trouxessem, de casa ou de algum restaurante, uma comidinha melhor, mais bem temperada, mais apetitosa ao paladar. Tive que comer a comida sem sal, pouco tempero e de baixas calorias. Sem falar na quantidade reduzida de comida que me era servida! 

Odeio ficar parado, mas passei 4 dias de cama, de onde só saía para ir ao WC, e até a posição que eu deveria dormir foi o médico quem determinou (quase sentado, tronco a no mínimo 45 graus)! 

Odeio receber ordens e me submeter a proibições, mas na época eu era fumante, e não só me proibiram fumar no hospital, como me exigiram parar de fumar na convalescença, sob a pena de piorar e ter que me internar novamente! 

Concordo com você! A igreja é hospital. Lá você não faz o que quer, não come o que quer, não ouve o que quer! Lá você se submete a um tratamento, e este tratamento não é determinado por você! Lá, você é paciente e passivo! E se for preciso, vão abrir teu corpo, extirpar tumores, amputar membros e outras coisas mais, sempre para o seu bem! 

O problema não é a Igreja ser hospital, mas sim você, que é o paciente, não se submeter ao tratamento! É uma pena que a maioria das pessoas que se achegam à Igreja, acreditam estar entrando em um hotel 6 estrelas, no sistema "all inclusive"... O problema é que as pessoas que gritam "a Igreja é hospital!" geralmente não admitem que os médicos diagnostiquem suas doenças (pecado) nem se submetem ao tratamento!

Sim, a Igreja é hospital. E você? É um paciente? 

"... pastores que a si mesmos se apascentam... " (Jd 12).

quarta-feira, 15 de junho de 2016

O ALTAR DE ACAZ, E OS ALTARES DO GÓ$PEL

"Então o rei Acaz foi a Damasco encontrar-se com Tiglate-Pileser, rei da Assíria. Ele viu o altar que havia em Damasco e mandou ao sacerdote Urias um modelo do altar, com informações detalhadas para sua construção. O sacerdote Urias construiu um altar conforme as instruções que o rei Acaz tinha enviado de Damasco e o terminou antes do retorno do rei Acaz. Quando o rei voltou de Damasco e viu o altar, aproximou-se dele e apresentou ofertas sobre ele. Ofereceu seu holocausto e sua oferta de cereal, derramou sua oferta de bebidas e aspergiu sobre o altar o sangue dos seus sacrifícios de comunhão. Ele tirou da frente do templo, dentre o altar e o templo do Senhor, o altar de bronze que ficava diante do Senhor e o colocou no lado norte do altar. Então o rei Acaz deu estas ordens ao sacerdote Urias: "No altar grande, ofereça o holocausto da manhã e a oferta de cereal da tarde, o holocausto do rei e sua oferta de cereal, e o holocausto, a oferta de cereal e a oferta derramada de todo o povo. Espalhe sobre o altar todo o sangue dos holocaustos e dos sacrifícios. Mas utilizarei o altar de bronze para buscar orientação". E o sacerdote Urias fez como o rei Acaz tinha ordenado" (2 Rs 16:10-16).

Nada do que está escrito no Antigo Testamento está ali gratuitamente; antes, tem um significado, uma preciosa lição e um princípio a ser observado pela Igreja, nestes últimos dias (Rm 15:4)! Parece que o relato acima tem função apenas de informar o acontecido, já que o texto não emite parecer de juízo acerca do fato, não diz se isso foi ou não agradável ao Senhor. E nem precisava! Todo o Tabernáculo e suas peças e mobiliário foi dado por Deus, com a expressa admoestação de que nada fosse feito diferente do que fora mostrado a Moisés no monte (Ex 25:40)! Assim, qualquer alteração, qualquer troca de mobiliário, qualquer troca de altar, é obviamente desaprovada por Deus. Davi, quando trouxe a arca para Jerusalém décadas antes, inventou de trazê-la em um carro novo, guiado por bois. Isto custou a vida de Uzá!

Entretanto, o altar que Acaz viu em Damasco era belíssimo! Aliás, muito mais funcional que o altar de holocaustos que estava no Templo! Assim, em nome da modernidade, da praticidade e de outros argumentos lógicos, o que impedia que fosse adotado no Templo, no culto a Yahweh? Nada! Só o apego das pessoas ao antigo, e o preconceito em relação ao novo... Assim sendo, retiraram o altar dos holocaustos, deixando-o de lado, e adotaram o belo e suntuoso altar de Damasco, aonde passaram a ser feitos os holocaustos do culto em Judá!

O povo de Deus tem sede e fome de imitar as coisas que vê no mundo! Embora haja fortes e terríveis admoestações de que não devemos imitar o mundo (Tg 4:4; 1 Jo 2:15-17), e no Antigo Testamento haja fortíssimas admoestações para Israel não se mesclar aos seus vizinhos por causa de sua idolatria, práticas pagãs e costumes contrários aos princípios que Deus queria instituir no meio de Seu povo, a Igreja tornou-se especialista em mesclar as coisas de Deus com as mundanas. 

Falamos mal dos reis antigos, pois quase todos fizeram "o que era mau aos olhos do Senhor", e andamos pelos mesmos caminhos maus! Assim, quando vemos uma banda "Gó$pel" idêntica a uma banda "do mundo", quando vemos costumes dos crentes idênticos aos costumes do mundo, quando vemos os conceitos mundanos substituindo os conceitos da Palavra de Deus, nada mais vemos que o reflexo da depravação do homem, que existia nos reis antigos e existe nos crentes de hoje, que sempre buscam agradar o mundo, imitar o mundo, ser honrados pelo mundo, ser reconhecidos e elogiados por ele, mesmo que ao altíssimo custo de desagradar a Deus. 

Então, o homem usa de artifícios para justificar seu pecado e sua desobediência! Qualquer desculpa justifica! Assim como Acaz viu um lindo altar, e o trouxe ao templo, os Acazes de nossos dias acham lindas as festas juninas, e a trazem para a Igreja! Acham lindas as baladas, atrativas para os jovens, e a trazem à Igreja! O objetivo da Igreja é ser parecida com o mundo, a sua cara! Mas o que vale é que estão ganhando almas!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

UMA RESPOSTA AO ALEXANDRINO: Uma Réplica em Defesa de Sob os céus da Escócia

O tão anunciado artigo sobre o livro “Sob os céus da Escócia (2015)” da lavra do Rev. Alan Renê de Lima foi finalmente publicado. Em primeiro lugar, analisando particularmente seu conteúdo, tive a impressão (isso só percebe quem conhece o livro) que o articulista leu a obra, mas não entendeu sua proposta. Além do mais, que ele não tenha gostado do livro isso restou claramente evidenciado e é até um direito que lhe assiste. Por outro lado, e com máxima distinção, igualmente evidente que não o entendeu. Todavia, como ele se esforça para descredibilizar o livro, sobretudo no tocante às fontes, julgo ser interessante logo de início tecer algumas considerações a respeito. Portanto, afirmações equivocadas de menor gravidade, como minha qualificação como ministro da Igreja Episcopal Carismática, serão deixadas de lado.

O articulista parece estranhar não apenas as fontes, mas igualmente os eventos envolvendo profecia preditiva, curas inexplicáveis e ressurreições informados no livro. Com efeito, todos os relatos carreados em Sob os céus da Escócia, são registros históricos extraídos de fontes reformadas e calvinistas, escritas por autores igualmente reformados e calvinistas. Gente séria que angariou reputação ilibadíssima, tais como John Howie, Theodore Beza, Robert Fleming, London Gardner, Patrick Hamilton, Peter Hume Brown, Patryck Walker, Alexander Smellie, et al. Todavia o articulista manifesta seu inconformismo talvez porque tais relatos confrontem sua posição teológica. As fontes das quais me utilizo, foram utilizadas pelos Drs. Lloyd-Jones, bem como pelo Dr. Ian Murray em The Puritan Hope (Banner of Truth, 1971) e outros tantos escritores reformados. O uso de tais relatos não ficou restrito aos séculos 16, 17 e 18. Em um de seus livros, Lloyd-Jones diz que

houve um homem chamado John Welsh que era tão reformado e tão calvinista como seu sogro, John Knox. Foi dito dele - e há boa prova disso num livro escrito por um escritor igualmente reformado e calvinista - que, quando ele residia no sul da França, foi usado para ressuscitar uma mulher dentre os mortos. [...] Ou considerando o dom de profecia, façamos uso da ilustração. Tome de novo o caso de John Welsh, ou de outro grande ministro da Escócia, Alexandre Peden. Se vocês lerem as biografias desses homens, verão que eles puderam proferir profecias de eventos que aconteceriam na Escócia - e que de fato aconteceram.[1]

A diferença substancial entre os apontamentos do Dr. Lloyd-Jones e os apresentados em Sob os céus da Escócia é que dou nome aos protagonistas, enquanto Jones apenas menciona fatos. Ele fala da ressureição, enquanto eu, informo ao leitor outros dados históricos como detalhes que o envolvem, à semelhança da ressurreição do Lorde Ochiltree, pelas mãos de Welsh.[2] Dou vida e precisão histórica aos relatos citando profecias nos ministérios de John Welsh, John Knox, George Wishart, Alexander Peden, John Davidson, Richard Cameron, Robert Bruce e John Semple. São indubitavelmente oito respeitáveis ministros. Não há na minha lista nenhum louco ou fanático. Todos homens que amavam a Palavra e pregavam-na com todo ardor. Contudo, profetizaram coisas impressionantes, incluindo detalhes sobre as mortes de determinadas pessoas com aquela precisão cirúrgica que chega a causar assombro.

Além do mais, quando isso foi possível, fiz uso de mais de uma fonte. Tome como exemplo o relato sobre uma ocorrência de profecia com João Calvino registrada por Beza e que foi publicada na biografia do principal reformador de Genebra. Além de apontar o registro de Thomas Boys (1832), informo ao leitor que o mesmo relato se encontra na obra de London Gardner (1744), bem como numa tradução do latim para o inglês publicada em 1844 pela Calvin Translation Society. Foi a partir desse tipo de obra altamente qualificada que pesquisamos. Contudo, o articulista tem insistido “ad nauseam”, em atacar a credibilidade afirmando categoricamente que o livro é mal pesquisado. O que não é verdade.

O articulista teve dificuldade para localizar fontes e protesta logo de início que a confusão se dá por uma suposta imperícia minha em alocar as referências seguindo rigor das normas científicas:

“Um exemplo disso pode ser percebido no fato de que, ao tratar do alegado continuísmo do escocês George Gillespie nenhuma fonte primária é apresentada, com exceção da menção a dois tratados sobre o dom de profecia no Novo Testamento (p. 65, nota de rodapé nº 15). Não há nenhuma declaração do próprio Gillespie. Há apenas testemunhos oriundos de biografias. Na verdade, as únicas palavras de Gillespie documentadas (p. 64) são tomadas a partir de uma fonte secundária difícil de identificar, dada a maneira equivocada como as notas de rodapé estão organizadas do ponto de vista da metodologia da pesquisa científica.

Quanto ao protesto acima, explico. As referências de nº 13 e 15, estão jungidas à 33 que na página 58 menciona a obra sobre a qual eu extraio as citações de Gillespie. É verdade de fato que Gillespie faz um apanhado de trabalhos inclusive da Patrística tais como Crisóstomo, mas o faz afirmando claramente que tais testemunhos são tomados como sua posição particular e conclui dizendo que ele próprio testemunhara ocorrências proféticas em seus dias:

“E agora, tendo ocasião, eu tenho que dizer isto, para a glória de Deus, havia na Igreja da Escócia, antes do tempo da nossa primeira Reforma e depois da Reforma, em ambas as ocasiões tais homens extraordinários, superiores a simples pastores e mestres, nivelados aos santos profetas recebendo revelações extraordinárias de Deus e predizendo diversas coisas incomuns e acontecimentos notáveis, as quais aconteciam promovendo grande admiração em todos aqueles que os conheciam em particular.”( p. 64, nota 13).

A propósito, a nota de rodapé de número 15 na página 65, tão somente descreve o título dos ensaios sobre a matéria escritos por Gillespie em Treatise of Miscelany Questions, parte de Works of George Gillespie – One of the Commissioners from Scotland to the Westminster Assembly. Contudo, tais ensaios são mencionados apenas como informação complementar. Caso o leitor deseje averiguar e pesquisar mais acuradamente. Eu lançarei mão deles no volume 2. Sobre a obra mencionada acima, a edição que tenho é um reprint do original de 1644 e publicado pela Still Waters em 1991. A propósito, a citação acima é extraída da obra adrede mencionada especificamente da pág. 30 de Treatise of Miscelany Questions. Seria esta fonte marginal ou sem credibilidade? O esforço do articulista demonstra-se mais como o desejo de confundir a mente do leitor, do que propriamente auxiliá-lo.

Ele também me acusa de ter afirmado o viés continuísta da CFW, quando em nenhuma das páginas do livro o tenha feito. Nem tampouco afirmei categoricamente que qualquer dos puritanos citados fosse continuísta. Disse que a CFW é um documento redigido com caráter conciliatório. Segundo eu o Dr. Milne entendemos, sua concepção se presta à articulação com fins políticos de pacificação, necessária em um cenário religioso, civil e político bastante conturbado. Neste sentido, não importa o que cada puritano em particular escreveu em defesa de um cessacionismo específico ou de um continuísmo incipiente. Importa é que o enunciado da Confissão apenas se opõe tacitamente quanto à possibilidade de novas revelações com força de mandamentos universais para a Igreja. Este propósito da profecia, sustento no livro, cessou. A que permanece em nossos dias, também sustento no livro, é de caráter extraordinário. Assim sendo, eu não consigo entender que o articulista tenha interpretado como completo revisionismo histórico o simples apontamento através da história da mentalidades quanto ao surgimento do cessacionismo atual como uma excrescência teológica.

Por conseguinte, para quem alega possuir credenciais acadêmicas e treinamento teológico formal, o articulista se autodenuncia quando não compreende evidências muitos simples, que podem ser deduzidas facilmente com uma leitura cuidadosa. Tome o exemplo quando ele diz que eu não me preocupo em apresentar uma definição sobre qual seja o cessacionismo confrontado na obra, e me acusa de atacar tão somente o sistema quando lhe associo ao ateísmo bem como ao liberalismo de Bultmann. No entanto, eu apenas usei a mesma “régua” utilizada por MacArthur quando este mediu o continuísmo – sem conceitua-lo devidamente, diga-se de passagem. “Com a medida que medirdes, vos medirão também”, disse nosso Senhor. Pois bem, no livro Os Carismáticos (Fiel, 1995), MacArthur a certa altura na página 61 defende a ideia de que a teologia que “possa resultar de nossa experiência não é originária do movimento carismático. Ironicamente, diversos elementos, todos anti-cristãos, têm contribuído para que esse conceito de teologia experimental cresça: Existencialismo, Humanismo e Paganismo.”. Então o continuísmo pode ser acusado injustamente de possuir raízes no paganismo, enquanto o cessacionismo não pode sê-lo por irmanar-se a pressupostos anti-sobrenaturalistas ateístas ou liberais? Se MacArthur pode proceder como demonstrado em julgamento particular, seus opositores podem fazê-lo ao refutar o tipo de cessacionismo que ele abraça. Por outro lado, está tão claro que eu trabalho o cessacionismo mais vulgarmente conhecido e divulgado aqui no Brasil, que julguei desnecessário expor os detalhes das variações próprias do sistema. Ora, se na obra eu dialogo com as teses de cessacionistas tais como Richard Gaffin (p.175ss), Sinclair Ferguson (p. 196), Brian Schwertley (p.184), MacArthur (p. 157ss), Palmer Robertson (p.171), eu realmente necessito esclarecer contra qual cessacionismo me insurjo?

Ele também afirma que eu sustento alegação de que George Gillespie era continuísta. Por outro lado, há uma afirmação muito clara carreada no livro que não foi transcrita no artigo, onde digo:

Ainda que não seja provada sua aliança com o continuísmo, Gillespie se rendeu aos fatos e os explicou da única forma que poderia tê-los explicado: afirmando que, tendo sido encerrado o cânon bíblico, Deus falou extraordinariamente através de instrumentos humanos, revelando fatos impressionantes que se cumpriram para espanto de toda nação escocesa” (p.65). [grifo meu]

Onde estaria minha alegação de que Gillespie era continuísta? O articulista poderia ter transcrito algum trecho do livro com a dita alegação, o que não ocorreu. Não satisfeito, afirma que além de Gillespie, rotulei Calvino, Samuel Rutherford e Jonathan Edwards igualmente como continuístas. Ora, vejamos se procede a afirmação. Na página 57 após informar sobre determinada ocorrência profética com Calvino, digo o que segue: “Neste sentido, é possível admitir a possibilidade de clarividência sem ser necessariamente um carismático. E prossigo dizendo que “a despeito do que Calvino tenha escrito dentro de uma visão pessoal sobre pontos assumidamente controversos, ou sobre textos em particular, foi posto à prova, conforme demonstrado na narrativa há pouco citada e vista na sua biografia escrita por Beza, qual seja, que ocorrências miraculosas não foram completamente excluídas nem do seu credo nem da sua experiência” (p.58). Na página 94, analisando algumas ocorrências no ministério de George Wishart (1513-1546), assevero: “É preciso que se diga que tais reuniões não eram ajuntamentos em busca novas revelações proféticas. O povo juntava-se para ouvir atentamente a exposição bíblica”. E mais adiante, na página 96, ainda sobre ele, afirmo: “As profecias aqui registradas não eram o norte de seu ministério. Sua função como pregador da Palavra inspirada era a atividade em que se dedicava. Pregar as Escrituras com fidelidade de maneira a instruir o povo em todo desígnio de Deus era seu alicerce ministerial. Mas isto não o impediu de se dedicar à oração e de ser canal da vocalização profética em seu tempo.” Já no capítulo onde analiso as profecias de John Knox (1505-1572), na página 106, registro minha impressão acerca de um relato do próprio em que ele afirma que suas esperanças “não repousam em seu poder profético, porque este poder estava sujeito à cessação. Sua confiança está alicerçada na Palavra revelada, ainda que ele seja difusor da anunciação de fatos estranhos e incomuns em seus dias”. E desta forma, sigo no decorrer do livro inteiro fazendo afirmações semelhantes. Assim sendo, quem de fato usa textos de maneira dogmaticamente seletiva? O autor do artigo somente confirma que se utiliza da máxima de Lenin: “Acuse seus adversários daquilo que você faz; chame-os daquilo que você é.”

Quanto à minha interpretação acerca das linhas gerais da Confissão de Fé, bem como da Assembleia que a redigiu, o articulista omite expressões centrais de meu raciocínio e induz o leitor de sua crítica a erro. Ele pinça determinada afirmação particular para dizer que a linha de pesquisa empreendida no livro sugere que os delegados de Westminster combatiam tão somente o romanismo. E omite do contexto uma palavra crucial para o entendimento de meu raciocínio. Na transcrição abaixo, o uso da expressão “por exemplo” por si só explica que meu intento é dizer que a prática do comércio de indulgências promovida pela ICAR, era “um dos” problemas. Apontar “um dos problemas”, não é o mesmo que afirmar haver um “único”:

Os teólogos de Westminster estavam se opondo claramente à tradição romanista das indulgências, por exemplo. Neste sentido, ninguém poderia se apresentar como portador de nova revelação divina referente à salvação humana, tendo em vista o assentamento definitivo de doutrina a respeito. (p.36).

Diferente do afirmado, eu não situo a polêmica como direcionada única e exclusivamente à Igreja de Roma como sugerido. A propósito, mantenho a mesma percepção de Robert Letham e do Derek Thomas ao apontar a disputa como antiga. O conflito com os romanistas e anabatistas é denunciado por mim na página 49 Sob os céus da Escócia, da seguinte forma:

Ele também pronunciou-se contra o erro daqueles aos quais chamava de entusiastas, que relativizavam as Escrituras e a autoridade da Igreja ao apelarem para supostas revelações diretas e especiais de Deus. Não obstante, Calvino os combatia porque, em geral, os ensinos dos entusiastas referentes às reivindicadas manifestações de revelação eram contrários às Escrituras Sagradas. O conteúdo dos ensinos contrariava a Bíblia e, portanto, colocavam em xeque as revelações canônicas. [... Neste caso, para Calvino, seria um erro conceber que Deus entrasse em demanda contraditória contra si próprio. Em ligeira síntese, Calvino combate a pretensa autoridade do entusiasta de seu tempo, sobretudo porque seus ensinos contrariavam a Bíblia e isto era inconcebível para o reformador.

Antes, no entanto, ainda na página 26, trago ao conhecimento do leitor quais seriam tais ensinos e revelações, ao citar, como exemplo, o conteúdo das pregações apocalípticas de Melchor Hoffman.  E ainda quanto aos quakers, não merece prosperar a alegação do articulista de que os conflitos com eles se davam porque entenderam a CFW como cessacionista. A refrega era na busca pela apropriada definição sobre o aspecto ordinário/extraordinário da revelação imediata. O que eles não aceitavam era que as comunicações do Espírito com o espírito do crente fossem confinadas ao status de extraordinárias. Para os quakers, essa comunicação tinha caráter essencialmente ordinário. John Howe teceu considerações importantíssimas a este respeito em The Whole Works of John Howe, estabelecendo distinções entre revelação sobrenatural imediata, mediata, profecia, iluminação, premonições, etc.. Samuel Rutherford estabeleceu a revelação sobrenatural em quatro categorias distintas (p. 69), a saber: 1) Revelação profética; 2) Revelação especial somente ao eleito; 3) Revelação de alguns fatos estranhos a homens piedosos; 4) Revelação falsa e satânica.[3] Com isto, buscava-se preservar as revelações canônicas na formação da Escritura, de outras manifestações que se mostravam recorrentes no século 17. Eu avalio as conclusões de Rutherford com muita seriedade porque entendo como o Dr. Poythress que ele foi efetivamente o líder “na orientação teológica dos assuntos mais controvertidos discutidos na Assembleia” (p.68). Sua posição sobre o tema foi acatada, qual seja, que revelação sobrenatural, como evento extraordinário, pode acontecer mesmo com o encerramento do cânon. Além dos dois, William Bridge fez o mesmo especialmente no sermão Scripture light the most sure light. A ideia era separar o joio do trigo, visto que muitos grupos místicos reclamavam possuir revelações diretas da parte de Deus e causavam toda sorte de confusão com vários ensinos contrários à verdade revelada inclusive pelo próprio Cristo. Por isso o uso, por exemplo, do texto de Hebreus 1.1 na CFW.

Mas para entender melhor o conflito envolvendo os quakers, é de bom alvitre ouvi-los. Robert Barclay (1648-1690), importante teólogo do movimento, apelou para o texto de que “ninguém conhece o Filho senão o Pai; e ninguém conhece o Pai a não ser o Filho, e aquele a quem o Filho o desejar revelar” (Mt 11.27. KJV). Para quakers proeminentes, esta revelação do Filho se dá “no” e “pelo” Espírito, portanto, o testemunho deste é o único meio pelo qual o cristão pode alcançar o verdadeiro conhecimento de Deus. A cizânia se desenrolava no sentido de que para estes a Escritura não poderia ser única regra de fé e prática, mas o Espírito Santo, revelando-se internamente ao crente. Responder a este padrão subjetivo foi o motriz dos esforços puritanos para assentar a cláusula de que a Bíblia, mediada pelo Espírito era de fato a fonte pela qual todas as demandas deveriam ser julgadas. Este ponto da disputa restou evidente na conhecida Confissão de Fé Quaker The Confession of the Society of Friends, Commonly Called Quakers (1675).

Barclay também sugere que a ferrenha oposição dos quakers em relação aos puritanos girava em torno de uma exacerbada busca por conhecimento acadêmico. Esta busca, segundo ele, não avalizava o verdadeiro conhecimento de Deus nem era garantia de espiritualidade profunda. Defende também que embora a Escritura fosse autoritativa, era um fundamento secundário e subordinado ao Espírito. Este é o guia e principal líder segundo o qual os santos são levados à verdade. Para os quakers, o Espírito é superior e não se subordina à Palavra. Por sua vez, George Fox (1624-1691) afirmou o Cristo como o Logos divino, o Verbo encarnado, e a Escritura como palavras de Deus. Fox sustentava a superioridade de Cristo em relação à Escritura.[4] Em síntese, a Escritura são palavras de Deus, mas não é Deus.

A discussão com os quakers e outros místicos não estava associada necessariamente quanto à possibilidade de revelação extra-bíblica, mas em definir este tipo de revelação como extraordinária, ao invés de ordinária como desejavam os quakers. Mas este detalhe foi expresso na Confissão de maneira subjacente.  

Os quakers também foram combatidos pelos puritanos por que algumas das conclusões eram flagrantemente contraditórias, não apenas em relação à Escritura mas às próprias teses que defendiam. Tome como exemplo uma declaração confusa de Barclay ao afirmar que “a revelação interna não contradiz as Escrituras e nem a correta e sã razão”, para logo em seguida afirmar que “a revelação não pode ser julgada pelas Escrituras, nem pela sã e correta razão.” Os puritanos disputavam a própria existência de revelações imediatas nos moldes quakeristas. Para eles, a ocorrência de profecias não era mais possível de acontecer ordinariamente como no NT. Extraordinariamente, talvez.

No entanto, o articulista alega que a interpretação dos quakers sobre o que se redigiu no capítulo primeiro da CFW é crucial para entender que os divines estavam de fato falando irrestritamente de cessação revelacional imediata. Parece-me claro que Richard Cameron e outros tantos puritanos nem se deram conta que a CFW era cessacionista nestes moldes, visto que em anos posteriores à publicação verificou-se atividade profética entre eles. Uma das profecias, pronunciada por Cameron, é citada na página 125 de Sob os céus da Escócia, muitos anos depois do encerramento de Westminster.

O articulista fez uso da obra de David Dickson, sob a premissa de que este possui autoridade para firmar entendimento definitivo sobre a CFW por ser dela contemporâneo, e, portanto, familiarizado com seu contexto religioso, bem como com as suas conclusões. Convém perguntar: Os quakers também não eram contemporâneos e também não estavam familiarizados com o contexto? Os anabatistas, seekers, et al., também não? No entanto, ele traz ao nosso conhecimento a obra intitulada Praelectiones in Confessionem Fidei relatando impressões sobre um tipo rigoroso de cessacionismo puritano esposado por Dickson. Valer-se de Êxodo 17.14 para afirmar categoricamente que quanto aos modos de revelação “[...] todos findaram com a escrita” (Êx 17:14), me parece um exagero típico. Onde tal “indício” escriturístico pode ser utilizado apropriadamente como prova de cessação revelacional ad eternum? Apenas por que o Senhor ordenou que se registrasse um fato e que este fato memorial fosse lido para Josué? Usar este tipo de exemplo para determinar a cessação revelacional definitiva é o mesmo que apresentar uma faca como evidência de um homicídio praticado com arma de fogo.

A teologia reformada não é tão melindrosa como a erudição cessacionista deseja nos fazer crer. Sobre a questão que envolve a natureza do NT, por exemplo, Calvino sobre o texto de 2Tm 3.17, disse:

Ao falar 'Escritura' significa que Paulo está falando simplesmente do que chamamos de Antigo Testamento; como ele pode dizer que pode fazer um homem perfeito? Se é assim, o que foi adicionado mais tarde através dos Apóstolos parece ser supérfluo. Minha resposta é que, tanto quanto a substância da Escritura está em causa, nada foi acrescentado. Os escritos dos apóstolos não contém nada além de uma simples e natural explicação da Lei e dos profetas, juntamente com uma descrição clara das coisas nele expressas.[5]

Por conseguinte, o articulista se socorre em Robert Letham, corroborando a tese de que “a questão da revelação especial não foi alvo de discórdia que demandasse uma acomodação de opiniões divergentes.” E prossegue argumentando que “houve acordo generalizado sobre o seu conteúdo”. Mas não me ocorre tenha eu afirmado no livro que havia dissensão no Concílio sobre o conteúdo da revelação especial conforme registrado na Bíblia. Sugere também que os debates na Assembleia de Westminster mantinham-se sob um “clima ameno”, sem maiores controvérsias e polêmicas. Ora, se John Milton, assim como erastianos e representantes do Parlamento (alguns descrentes?) estavam presentes, dizer que não houve polêmica é ignorar a natureza dos conflitos humanos. John Milton mesmo é conhecido por uma posição controvertida sobre o divórcio que foi duramente rechaçada pela Assembleia. Mas ouçamos o Dr. Milne, sobre o background daqueles delegados:

“Eles vieram para a Assembleia com um pano de fundo profundamente influenciado por um protestantismo polêmico que deve muito a esses estudiosos como Martinho Lutero, João Calvino, Zwinglio Huldrich, Henry Bullinger e Pedro Mártir Vermigly. Enquanto João Calvino foi sem dúvida a força dominante entre os puritanos e os escoceses ele não era de modo algum a única. Além disso, o “Calvinismo” foi representado por um espectro de opiniões teológicas dentro de parâmetros reconhecíveis. Isso ficou evidente na própria Assembleia, onde os debates sobre a doutrina da expiação foram expostos radicalmente com diferentes interpretações da sua extensão e aplicação. Não devemos supor que porque Calvino manteve certos pontos de vista sobre a cessação da revelação sobrenatural, estes foram necessariamente espelhados nos documentos da Assembleia de Westminster.”[6]

Quanto aos comentários sobre o termo “salvação” que uso para revisar a majoritária interpretação da Confissão, o articulista subscreve que entre os puritanos havia aplicação diversa. A tese do Dr. Milne está correta, no entanto o articulista revela que não apreendeu acertadamente seu escopo. Ou seja, ele busca provar que o termo “salvação” expresso no capítulo I da CFW, tem uma abrangência tal que se torna difícil saber qual tipo de salvação os delegados de Westminster tinham em mente. E que em relação a isto, tanto minha análise, quanto minha conclusão laboram em erro. A questão é que meu ponto trata especificamente do termo e seu uso no capítulo I; e mesmo este uso tem conexão direta com os demais ao longo do documento (2.1; 3.5,6). Não há conflito entre a minha tese e a do Dr. Garnet Milne. Ou seja, ainda que o termo “salvação” pudesse ter significado diverso na CFW, no capítulo primeiro ele se relaciona essencialmente com soteriologia e com uma teologia escatológica do Reino mais abrangente com referência ao seu aspecto primordialmente espiritual. Berkhof diz que o Reino de Deus é representado não como temporal, mas como um reino eterno (Is 9.7; Dn 7.14; Hb 1.8; 2Pe 1.11). Assim, entrar no Reino do futuro é entrar num eterno estado (Mt 7.21-22), é entrar na vida (Mt 18.8-9), é ser salvo (Mc 10.25-26)”.[7] [Grifo nosso].

É flagrante neste sentido que o articulista parece não haver compreendido a conclusão do Dr. Milne. Este, quando menciona os aspectos temporais da salvação, avaliados sob o crivo da teologia do Reino de Deus mantém entendimento próximo ao meu. Contudo, sobre isto, o articulista diz:

“Milne observa ainda que uma pesquisa nos Padrões de Westminster “revela que o substantivo, as formas verbais e o conceito de ‘salvação’ aparecem muitas vezes ao longo desses documentos, mas a definição do conceito não é uniforme”.[8] Como evidência dessa afirmação creio que alguns exemplos possam ser apresentados. No Capítulo 2.1, sobre Deus e a Santíssima Trindade, salvação é entendida como perdão dos pecados e libertação da justa retribuição da ira de Deus que não inocenta o culpado. Em 3.5, sobre o Eterno Decreto de Deus, salvação é conceituada como eleição em Cristo Jesus para a glória eterna. Já no parágrafo 6 desse mesmo capítulo os elementos dessa salvação são apresentados, a saber: “santificação, justificação, obediência, santidade, adoção como filhos e boas obras”.[9] No caso, salvação compreende toda a Ordo Salutis. Milne conclui a sua investigação sobre o sentido de “salvação” na CFW afirmando: “Dentro dos capítulos da CFW nós encontramos evidência interna para uma ampla definição de salvação que transcende redenção pessoal ou salvação escatológica e que oferece ao crente benefícios que incluem bênçãos temporais”.

Agora, pedindo licença ao articulista, indago: “Perdão dos pecados”, “libertação da justa retribuição da ira de Deus que não inocenta o culpado” (uso do termo salvação na CFW 2.1), “eleição em Cristo para a glória eterna” (uso em CFW 3.5), ou, “santificação”, “justificação”, “obediência”, “santidade”, “adoção como filhos e boas obras” não representam a mesma coisa? (CFW 3.6). Só quem é salvo, é justificado, obedece, santifica-se, tem o perdão dos pecados e fica livre da justa retribuição da ira de Deus que não inocenta o culpado. Ora, se dizemos que alguém foi eleito em Cristo para a glória eterna, certamente teremos dito que ele foi o quê, senão salvo? Ou, se afirmarmos que alguém foi liberto da justa retribuição da ira de Deus, estaremos afirmando o quê? Que este alguém foi salvo, óbvio. E se eu assevero que um pecador foi justificado, não concluo que tal justificação se dá para que a salvação (como benção temporal e eterna) se estabeleça (Rm 8.29-30)? Neste sentido é que o capítulo 14 da CFW diz que salvar-se é “aceitar e receber a Cristo e descansar só nele para a justificação, santificação e vida eterna, isso em virtude do pacto da graça”.

O que o Dr. Milne sugere é que o termo “salvação” para os puritanos pode ser abrangente em certo sentido, mas está ligado a uma única ideia central (ordo salutis). E, evidente que transcende o ponto de redenção pessoal (ou particular). Isto por que, na Escritura, salvação ora é mencionada a indivíduos, ora a povos, nações, etc. Ora se fala em redenção de povos, ora, de pessoas em particular. Basta uma lida em Romanos 8-9 para compreender isso. Além do mais, trata-se de redenção escatológica tanto quanto se trata de salvação do pecado estrutural que mantém influência neste mundo tenebroso. Salva-se também aquele que se opõe à esta estrutura e se rende ao padrão do Reino de Deus em confronto com o mundo que jaz no maligno. “Salvo” pode considerar-se aquele que não se conforma com este século (Rm 8), e é neste sentido que, ao meu ver, a redenção assume também aspecto de benção temporal apontado por Milne. Todavia, o articulista se esforça inutilmente no propósito de tentar nos fazer acreditar que existe diferença etimológica substancial entre “tire uma xerox” e “tire uma xérox”, quando “tenho sede de água” e “vou à sede da empresa” é que são realmente diferentes. A palavra “sede”, a depender do contexto e uso empreendido, assume conotação diametralmente distinta.

E quanto a este último ponto, ou seja, o fato do articulista não haver entendido o que o Dr. Milne escreveu, de certa forma revela uma dificuldade hermenêutica alimentada pela teologia dogmática. Em síntese, ele leu e não entendeu Sob os céus da Escócia, tanto quanto leu e não entendeu o livro do Dr. Milne.

Por derradeiro, cabe aqui uma pergunta, prezado leitor: Porque a Confissão de Fé de Westminster inicia com um capítulo sobre as Escrituras Sagradas? Você nunca parou para se perguntar a respeito? Natural seria que o primeiro capítulo reservasse espaço para tratar sobre ontologia divina. Sendo esta, a prática corriqueira, por que os teólogos de Westminster fizeram diferente? Penso que para registrar que estas tensões eram tão fortes e significativas que exigiram lugar de destaque e primazia nos debates. Mas este é um ponto que abordaremos no volume 2.





[1] Exposição sobre Capítulo 12 de Romanos. O comportamento Cristão. Editora PES. 2003, p. 283.
[2] A propósito, o relato de Lloyd-Jones combinado com o meu, aponta que fora, duas ressurreições operadas a partir do ministério de Welsh
[3] RUTHERFORD, Samuel. A Survey of Spiritual Antichrist. London: Printed by F.D. & R.I for Andrew Grookeand, 1648, chap. vii of revelation and inspiration, p.39.
[4] FOX, George. The Works of George Fox. Philadelphia: M.T.C Gould, Journal, vol. i, 1831, p; 171.
[5] CALVINO, João. The Second Epistle of Paul the Apostle to the Corinthians and Epistles to Timothy, Titus and Philemon, eds. D.W Torrance, T.F. Torrance, trans. T.A. Smail, Vol. 1, Calvin's Commentaries. Grand Rapids: W.m B. Eerdmans Publishing Co., 1964.
[6] MILNE. Garnet Howard, The Westminster Confession of Faith and Cessation of Special Revelation. A Thesis submitted for the degree of Doctor of Philosophy at University of Otago, Dunedin, New Zealand, 2004, pp 44-45. Como minhas consultas se deram na própria tese do Dr. Garnet, encaminhada gentilmente por ele, e não no livro como o articulista, transcrevo ipsis literis o trecho como está na tese: B. Theological inheritance: “They came to the Assembly with a background profoundly influenced by a polemical Protestantism which owed much to such scholars as Martin Luther, John Calvin, Huldrich Zwingli, Henry Bullinger and Peter Martyr Vermigli. While John Calvin was arguably the dominant theological force among the Puritans and the Scots, he was by no means the only one. Furthermore, “Calvinism” was represented by a spectrum of theological opinions within recognizable parameters. This was evident at the Assembly itself, where debates on the doctrine of the atonement exposed radically different interpretations of its extent and application. We should not assume that because Calvin held certain views on the cessation of supernatural revelation, these were necessarily mirrored in the Westminster Assembly documents.”
[7] BERKHOF. Louis, Systematic Theology. Grand Rapids: Eerdmans, 1959, p. 708.